27.4.22

Todo santo dia era São Bento. O sol podia estar “de rachar”, eu estava lá, pra variar. Magrela azul, quicando nas pedras do caminho, esquina após esquina, ultrapassando a linha. Na frente da casa de um, dentro da casa de outro, cada um no seu quadrinho. Horas a fio, em dupla ou em trio, a gente falava de cinema a balada, do pop ao rock, admirando os trotes das meninas apressadas. Quando não dava mais para segurar o relógio, cada um pro seu lado de acordo com o enfado. Só um intervalo para no outro dia, machucar de novo as pedras frias e ao sabor do vento voar sobre o tempo na Rua São Bento.

15.11.20

DESTINO SELADO

Quando olhei atrás, passei o passado. 

Quando pra frente, nada acertado. 

Além portas, fiz Deus confiado. 

Soltei do peito o ar confinado.

Pelo impossível fui desafiado.

E a partir dali, o caminho traçado.

Segui a senda de olhos fechados.

Mas eu, feliz, ora perdido, fui achado. 

14.3.08

27.12.06

Verdades, Verdades 2


Lembra de tudo quanto mais bonito vimos passar diante dos nossos olhos?

Em algum lugar, isso não se desvaneceu
Em algum lugar dentro de nós
As cores desses sonhos ainda permanecem vívidas e gentis
Apenas aguardando um instante para aflorarem de novo

A tristeza
Seja lá de onde tenha partido
Não mais voltará a tingir de cinza nosso rosto

Por mais que todas as coisas digam não
Há sempre uma luz que rompe as contradições
Acima de todas as tempestades
Que me faz rir mesmo sem motivo

Meu coração estremece
Só em ouvir o silvo dessa voz luminosa atravessar minhas portas

E por fim
Sei com certeza que será assim contigo também
Pois no íntimo te conheço um pouco

Verdades serão sempre verdades.

30.11.06

Universo em Prosa


Ando pensando tão alto
Temo que possa escutar, aí de onde estás
Ando dizendo em silêncio
Que não acreditariam se dissesse
Que sigo em frente sonhando
Sem parar para pensar no passado

Deixo para trás poesias que jamais recordarei
Conto versos cem vezes repetir
Meia meia dúzia de palavras
Que andam dizendo por aí

Ando tendo, quando não entendo quanto
Ando sendo seu, enquanto tenho tino
Ando enfim para parar na sua, e sejas minha

20.10.06

Tatiando



De noites em noites, eu me desfaço em cortesias
Vindo de muito longe, errante
E como a lua, meticuloso

Cego, mudo ou surdo
Sei que tatiando
Crescentes fantasias

Me queixo de você
Está trapaceando
Me pondo em xeque, duvidoso

E numa minguante de olho
Eu ensaio aceno
Da cena que partia

Antes que fiques cheia de mim
Ou de si
Se preferir
Ir
Tatiando...

18.10.06

Sonhos

Costumam rotular sonhadores como pessoas que vivem no mundo da lua. Somente os que verdadeiramente sonharam com isso chegaram até lá.
Sonhos rasteiros nos nivelam por baixo. Sonhos elevados nos levam às alturas. Ausência de sonhos não nos levam. Sonhar é um exercício genial para o músculo da cabeça. Como todo músculo, se não usar, atrofia. Sublime, magnífico e incrível são adjetivos usados para os sonhos quando estes se tornam concretos, após terem sido chamados de loucura, idiotice e perda de tempo.

3.10.06

Noncircense

Três meses sem ver mundo, sem ver gente, se é que você me entende. Engarrafado e envelhecido num estúdio, o tempo todo era time code, o tempo todo era nós na fita sem desamarrar laços de coisa nenhuma. Era sempre eu diante da tela, e a vida passando que nem se via. Minha labuta era o meu cigarro, meu riso era um estalo, tudo lentamente sem filtro, e eu torcendo pelo corte rápido. Bem que podia ser um clip, e segurar a onda até o code final. Estava sempre atrás da moral, da história, e não rolava nada. Agora, essa tomada só vai fazer o currículo engrossar, pra Nêgo por aí ficar ligado na minha. Dá-lhe Nildão! As urnas eleitorárias só me lembram que a cada quatro anos um faraó é eleito, enrolado (!) com faixa de prefeito, de governo, pela direita, pela esquerda, e eu no meio do campo, no meio do trampo, fazendo vista pressa gente.
Depois de três meses, enfadado, agora no estudo. Vou colar grau! Aí então vocês vão ver...

5.8.06

Coração desmantelado

Ai, coração desvairado
Que corre desmantelado
Sem jeito dentro do peito
Ainda que preso, parado
No vão do seio caiado
É tão cheio de desejo

Coração arrisca um palpite
Loucura doida sandice
Coração tem juízo, não
Coração faz circular
Coisas que nem sei dizer
Emudeço só de pensar

Por que parou nessa menina
Será que você não atina
Que encrenca foi arranjar
Essa falta de compasso
Inda vai te por num laço
Pra nunca mais desatar

Ah, melo dias!
Não tem tino nem tom?
Acordes, acordes!
Nesse ritmo acabo atravessado
Pela flecha do cupido.

Ai, anjo meu entrometido!
Longe de mim te gaiolar
Mas só te aceito se rendido
Se vieres compungido
à minha cruz tomar
Onde fui me amarrar!
Ah, coração compassivo
Te regrar é como guiar
Um carro
vermelho com vertido.

21.7.06

DE SUPERMAN A CRISTO: COMO O PRIMEIRO AINDA ME ENCANTA E O SEGUNDO ME ARREBATA



Ainda lembro com riqueza de detalhes a primeira vez que assisti ao clássico Superman, O Filme, de Richard Donner. Minha tia estava então casada com o proprietário dos dois únicos cinemas de Juazeiro do Norte, a cidade encrustrada na bacia chamada Vale do Cariri.

Num instante, deixou a mim e minha prima Cristine na sala, e voltou com dois sacos de papel pardo cheios de balas e doces variados.
Além daquele dia, não lembro de ter estado num cinema antes.

As luzes se apagaram, a sala enegreceu. Aquele medo típico de criança diante do inusitado não me invadiu. A tela se iluminou toda com o clarão, era algo bem diferente das grandes salas de hoje em dia. Se passaram trailers, eu não lembro, mas as horas seguintes ficaram estampadas na mente pelo resto da vida. Só não consegui gravar minhas expressões e emoções tal como faço hoje, mas acredito que, pela qualidade das memórias, meus olhos ficaram presos, hipnotizados. Ficara vidrado naquela história impossível e mágica.


Terei saído do cinema saltitando como um bobo? Sonhava em voar como fazia a personagem?

Quando despenquei do varal da minha avó em que me segurava, e ganhei um talho na cabeça, o primeiro comentário foi: “Ele queria ser o Super-homem!”. Mas é claro que sim, e quem não queria? Mas não ali, não assim. Depois da experiência – de assistir ao filme, não da queda – ilustrei o filme inteiro em papel almaço, do tipo que não se vende mais. Encanto geral. Desenhara algo mais que uma bola com pauzinhos arremedando tronco, pernas e braços. Quase todo mundo insistiu com meu pai para que ele me inscrevesse a uma escola de artes, o que jamais aconteceu.

Se havia algum talento, foi aprimorado nas ruas, na banca de revistas usadas do Zé, ou comprando exemplares novos da economia dos trocos que nunca voltavam para o bolso do meu avô.


Vinte e quatro anos se passaram. O Superman ainda me encanta, mas encontrei um outro herói, real, que também não é deste mundo. Como Jor-El, seu Pai o enviou para salvação do mundo. O primeiro não podia interferir na história da humanidade. O segundo fez isso só pelo fato de ter nascido. O primeiro é admirado por todos. O segundo foi odiado a ponto de ser sacrificado. O primeiro vence a base de socos e superpoderes. O segundo pela força das palavras. O primeiro não se deixa vencer. O segundo se deixou vencer para que fôssemos feitos mais do que vencedores n'Ele. O primeiro existe apenas na imaginação coletiva. O segundo está VIVO, e habita dentro de mim!

14.7.06

por um sorriso só

A gente diz um punhado de palavras e um sorriso só bastaria
Bastaria um punhado de sorrisos para fazer raiar o dia
Um riso só pairaria sobre a gente em alegria
Se por um só ciso seu brilhasse euforia
No dia em que sol brilhasse a gente
Em que sol brilhasse a gente
Em que sol brilhasse
Sol a gente

11.7.06

A Trindade Indiscutível

Há uma corrente de pensamento bastante ampla que defende a máxima de que "religião, política e futebol não se discutem". Seus adeptos, na verdade, costumam ser pegos fazendo o oposto, usando do referido argumento para repelir qualquer ameaça às suas considerações.

Onde chegaríamos se não discutíssesmos abertamente questões polêmicas? Que progresso teríamos se evitássemos debates difíceis apenas por termos opiniões diferentes, preguiça ou preconceito? Como evoluiriam as ciências, como se fariam descobertas, como aconteceriam entendimentos? Falo de civilização, de se falar com bom trato, educação e polidez, utilizando a empatia, sabendo a hora de falar e de ouvir, enfim, como pessoas realmente interessadas em aprender e buscar a verdade.

Ah, a verdade... Parece um bem inalcançável, né? Uma utopia (nossa, uma mentira?). Será? Se crermos, por exemplo, que todas as coisas começaram em Um (em Deus), passam por Um e terminam em Um, então subentende-se que exista uma verdade: a d'Ele. Isso se você, que lê este post, acreditar que Deus exista.

Partindo do princípio de que existe Deus e existe verdade, então talvez nós é que não queiramos buscar essa verdade, para não desagradar alguns (lembrando que não se trata de imposição, pois nem Jesus, que afirmou ser o Caminho, a Verdade e a Vida não se impôs para que cressem n'Ele). Às vezes fugimos, relativisando tudo, pondo Deus à nossa mercê, transformando-O num Deus de conveniência, moldado a nossa imagem e semelhança.
Do "indiscutível" futebol fazemos torcida, nos colocamos de um lado e o defendemos; e da política, tomamos partido e no seu representante votamos. Em se tratando de Deus, um conceito mais universal, preferimos pulverizar.

Questões de fé se respeitam, mas também se conversam, se difundem, se investiga e se encontra resposta. Nenhum de nós deve julgar ter a última palavra em matéria da Divindade, mas é mister perguntar os por quês para que, enfim, a última Palavra seja d'Ele.

3.7.06

em dez linhas revelar
que de frente não posso mentir
que os olhos falam demais
que preferia me omitir
arroubos de amor, suspiros, ardor
é guardar no peito fornalha
feito trem a vapor
por fim dizer receio
bom senso me falha
"me rendo, desisto, sem jeito"

27.6.06

Universo Paralelo

Vez em quando eu cruzava a cidade, pelas ruas dos ilustres, indo pousar na tua casa. Fitas, rosários e santos pendiam na frente dela, entre céu e terra, e eu ali delirando.
Falava tarde inteira sobre os sonhos da última noite, dos vôos sobre campos verdes, planícies e clareiras.

Vez em quando os olhos escapavam pra ti, distraída. Pra ti, aliás, eu estava sempre viajando. Na visão que era tua, estava preso engaiolado. Mesmo gaiola aberta, me prendias no teu desleixo de menina.

Vez em quando emudecia. Era timidez que se soltava e ditava a hora da partida. Engasgava no adeus entre outras falas, mudas ficavam, e por fim, as engolia. Quando céu escurecia, brisa me levava a sonhar, a amar, fugaz, e peregrinar de novo.

23.6.06

No raiar e no crepúsculo, estava eu. Se na escalada ou no declínio te encontravas, era eu tua testemunha silenciosa.
Aqui num canto de muro, quase todas as manhãs e fins de tarde, subia a espiar nascer e sol-se-pôr atrás do Vale do Cariri. Poesia não se escutava senão nos raios de luz escapando das nuvens e o piar dos insetos.
Ali se dissipava todo lamento, amnésia de todas as dores e agruras do dia. O único palpite era do coração, na pulsação dos meus pensamentos solitários, envolvido nas coisas de menino. Quando tudo era pureza. Quando tudo era nobreza. Quando inocência era menina que não se descobria.
Em Juazeiro todos os cantos embalavam minha dança, todas as imagens encantavam meus olhos, todos os sabores eram permitidos, todos os toques se davam ao tato, todos os sentidos o mundo abraçavam.
Em Juazeiro todas as coisas faziam sentido, e sentido às vezes fico, sem ter muro mais, nascer ou sol-se-pôr.